Paisagem

Sophia de Mello Breyner Andresen, jovem
Pascoaes
28 Julho 2018
Sophia de Mello Breyner Andresen, jovem
Carta a Ruben A.
28 Julho 2018
Sophia de Mello Breyner Andresen, jovem

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
in “Poesia”, 1944

 

——∼∼≈∼∼——

Se pretende partilhar um comentário, colocar uma pergunta, acrescentar uma informação, ou observações, informamos que é possível fazê-lo sem que tenha de se registar neste sítio. Basta digitar a sua mensagem no espaço “iniciar uma conversa“, depois clique no botão enviar e escolha, “Prefiro publicar como convidado”.